Artigo: 50 Anos sem King

Na despedida do mês de abril, relembro as efemérides de importantes eventos históricos que poderiam ser rememorados em 2018: os cem anos da execução da família imperial russa pelos bolcheviques; cem anos do fim da Primeira Guerra Mundial; cem anos do nascimento de Nélson Mandela; os cinquenta anos da Primavera de Praga; cinquenta anos das manifestações de Paris, lideradas por Daniel Cohn-Bendit e também, cinquenta anos do assassinato de Martin Luther King.

O Dr. King, como era comumente referido, foi um pastor da Igreja Batista, e encontrou nos ensinamentos cristãos os fundamentos doutrinários para empenhar-se nas campanhas dos direitos civis dos negros norte-americanos, inspirando-se também nas ideias da desobediência civil de Mahatma Gandhi (morto há 70 anos, no mês de janeiro), conclamava os fiéis para uma campanha de não violência e de amor ao próximo.

Em agosto de 1963, ou seja, cinco anos antes de sua morte, durante a “marcha pelo emprego e pela liberdade”, em Washington, o inspirado baluarte da luta pelos direitos civis escolheu um lugar de especial relevo para todos que se empenhavam na luta pelas liberdades civis, o Memorial Lincoln, e ali pronunciou seu célebre discurso: “Eu tenho um sonho”. A simplicidade, a clareza de suas ideias e a firmeza dos seus argumentos comoveram o mundo, pois realmente nada poderia justificar a discriminação a que eram submetidos os descendentes dos escravos que tiveram importante papel na construção da grande nação americana.

Um fato que poderia ter passado sem maior repercussão. Em 1955, uma mulher negra, Rosa Parks, foi presa por negar-se a dar seu lugar a uma mulher branca. A resiliência daquela mulher levou as lideranças negras a realizar campanhas contra a segregação racial, com um boicote aos ônibus de Montgomery, durante o período de um ano e dezesseis dias, contando com a participação de Martin Luther King que, em consequência, sofreu ameaças de morte, foi preso e viu sua casa ser atacada pelos defensores das ideias conservadoras. Mas afinal a campanha foi vitoriosa, pois a Suprema Corte Americana considerou ilegal a discriminação racial no transporte público.

A repetição dessa experiência por meio de organizações em prol de novas conquistas se estendeu a outros estados em diversas marchas de protesto pacífico levaram a novas conquistas, como o direito ao voto, o fim das discriminações no trabalho. Em 1964, foi aprovada a Lei dos Direitos civis e, no ano seguinte, seguiu-se a Lei dos Direitos Eleitorais. A partir de 1965, somou-se às campanhas pelos direitos civis a campanha contra a participação norte-americana na Guerra do Vietnã.

A luta pelos direitos humanos, e particularmente a luta contra segregacionismo dos negros muito deve a Martin Luther King Jr. O reconhecimento de seu importante papel para a melhoria das condições de vida de seu povo teve enorme repercussão em outros países, a exemplo do que aconteceria mais tarde na África do Sul, sob a liderança de Mandela.

Após sua morte, mulltiplicaram-se as homenagens e o reconhecimento do seu importante papel na luta por um mundo melhor. Em 1986, foi estabelecido um feriado nacional nos Estados Unidos, o Dia de Martin Luther King, sempre na terceira segunda-feira do mês de janeiro, data próxima ao do aniversário do seu nascimento, num 15 de janeiro. Em 1977, recebeu postumamente a Medalha Presidencial da Liberdade; Medalha de Ouro do Congresso em 2004. Centenas de ruas, avenidas e praças foram batizadas com seu nome. Recife se somou a esse rol, homenageando o grande líder dos direitos civis uma das principais avenidas do Recife Antigo, onde se localizam a Prefeitura, o Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região e o Tribunal Regional Federal da 5ª Região.

Castro Meira é Ministro aposentado do Superior Tribunal de Justiça, Ex-Ministro do Tribunal Superior Eleitoral, Mestre em Direito e Advogado.