O Direito e as Letras: Censores em Ação

Em Censores em Ação, o historiador Robert Darnton explora como o Estado influenciou, controlou e usou da literatura em três períodos e sistemas de governo bem distintos: primeiro, na França Absolutista; depois, a Índia dos tempos em que foi colônia inglesa e, por fim, a Alemanha Oriental nos idos da Guerra Fria. Cada capítulo poderia até ser lido como um ensaio independente, mas juntos, costuram uma perspectiva do assunto ‘censura’ muito pouco óbvia.

Darnton apresenta uma vasta pesquisa, que vai dos arquivos dos censores de 1750 na Corte francesa, aos inquéritos da Bastilha – numa época que vê o início tanto do sistema burocrático quanto da polícia -, bem como atas dos tribunais ingleses na Índia. E em seu último capítulo, que trata de uma realidade histórica não tão distante, essa pesquisa se traduz em diálogos com os censores do regime na Alemanha Oriental.

Entre os achados de Darnton, é fascinante observar como os relatórios dos censores franceses mais se aproximavam de resenhas que de tentativas reais de cerceamento; algo possível porque os livros realmente ‘quentes’ não chegavam a passar pela burocracia: seus autores os imprimiam fora do país e depois contrabandeavam para a França. Na mesma linha, vão as disputas hermenêuticas entre advogados da defesa e de acusação e os juízes das causas na Índia, questionando metáforas, figuras de linguagem, gramática e pontuação, diálogos entre deuses e demônios, anedotas e outras referências folclóricas. A preocupação dos governantes ingleses em fazer grandes volteios jurídicos para não serem acusados de cercear a liberdade de expressão é tristemente irônica. Mais próximo historicamente, as entrevistas com os censores da Alemanha Oriental nos dá a dimensão de um governo que usava a literatura como instrumento de controle e ferramenta ideológica.

Na conclusão do livro, Darnton concorda que os exemplos que mostrou são ‘recortes’, micro-história, e que o uso da censura pelo Estado foi repleto de prisões, mortes e queimas de livro. A ideia de Censores em Ação, contudo, não é relativizar a censura, mas entender a figura do censor, demonstrar que as pessoas que faziam esse trabalho não eram simplesmente fundamentalistas procurando heresias por todas as páginas, mas gente que realmente entendia e amava a literatura, que acreditavam que o trabalho que faziam não era uma violência; bem como explorar o arcabouço político e jurídico pelo qual tudo isso se fazia.

Censores em Ação tem uma narrativa que é tanto capaz de informar quanto de envolver. Robert Darnton escreve de forma muito clara, muito objetiva, mas sem ser chato; e tanto traz um panorama amplo do que estava acontecendo em cada período, como também explora o interesse humano, personagens cujo nome se perdeu na História.

Título: Censores em Ação – como os Estados influenciaram a literatura
Autor: Robert Darnton
Tradução: Rubens Figueiredo
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2018

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