O Direito e as Letras: Fahrenheit 451

Clássico contemporâneo e considerado obra maior de Bradbury, Fahrenheit 451 é uma distopia que apresenta uma sociedade profundamente alienada, na qual os livros foram banidos e os bombeiros tiveram sua função desviada para começar incêndios em vez de apagá-los.

O livro foi publicado na década de 50, mas permanece extremamente atual: há ganchos para debater sobre excesso de informação, manipulação mediática, realidade aumentada e o abandono do pensamento crítico em troca de uma suposta felicidade anestesiada frente a programas interativos. Confrontado com todas essas questões, o protagonista da história – o bombeiro Montag – vive uma crise de identidade atiçada, é claro, pelos livros que ele tem de queimar.

Muita gente afirma que Fahrenheit 451 é um livro sobre censura e controle governamental. De certa forma, na discussão dele caberia muito bem uma comparação com 1984, Admirável Mundo Novo e Laranja Mecânica, todos distopias que conversam muito bem com nossa realidade. São visões de mundo complementares, que apresentam a humanidade sob um aspecto pouco lisonjeiro, em que violência, velocidade e programas de TV pensados para nada ensinar asseguram a continuidade do status quo.

Bradbury é um pouco mais otimista que os outros citados, ainda que, em sua história, o banimento dos livros tenha começado não por imposição de um governo ditatorial, mas sim por parte da própria sociedade, que prefere se nivelar pela mediocridade a troco de uma suposta igualitária utopia. Otimista porque o romance termina numa nota de esperança, na qual após a destruição (literal) do sistema antigo, há possibilidade de reconstruir e resgatar valores esquecidos. Fahrenheit 451 é, sim, um livro sobre censura e alienação, mas é também uma história sobre independência e aprender a pensar por si mesmo, sobre se descobrir e se reinventar, sobre ser capaz de construir sua identidade.

Despidos os eventuais anacronismos que caracterizam a época em que Bradbury escreveu o romance, Fahrenheit 451 permanece atual e importante frente a uma sociedade que consome informação sem ter tempo de digeri-la, transformando dados em memes e viralizando boatos sem consultar fontes. Bradbury foi um visionário, espetacular em sua capacidade de divertir e de fazer pensar e é exatamente por isso que o debate de um livro como esse é tão relevante.

Título: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Tradução: Cid Knipel
Editora: Globo
Ano: 2012

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