O Direito e as Letras: O Mercador de Veneza

Considerada uma das ‘peças-problema’ de Shakespeare, visto não se classificar nem como comédia, nem como tragédia, O Mercador de Veneza traz dois enredos paralelos que se cruzam ao final da história. Primeiro, a oposição entre o nobre cristão Antonio, o mercador do título, e Shylock, o judeu agiota; juntamente à corte de Bassanio a Portia.

Bassanio é amigo de Antonio e, para cortejar a moça, que é uma fabulosa herdeira, pede dinheiro emprestado ao companheiro. O problema é que a fortuna do mercador está investida em navios, que se encontram em todas as partes do mundo; de forma tal que, para ajudar o outro, ele vai pedir dinheiro emprestado a Shylock.

É importante lembrar que a história se passa numa cidade italiana medieval, dominada, pois, pelo catolicismo, que condenava de forma absoluta a usura. Veneza, contudo, era uma cidade extremamente mercantil e, como se sabe, comércio precisa de crédito e ninguém dá crédito de graça. Entram assim os judeus, que não tinham problemas de consciência em emprestar dinheiro a juros.

Apesar de serem vitais para a economia, isso não significa que os judeus fossem menos odiados. Antonio despreza Shylock, a quem já cobriu de cusparadas e talvez até uns pontapés. Mas ele precisa de dinheiro e cristãos não fazem empréstimos, de forma que só sobra a ele ir atrás de um judeu.

Agora considere que Antonio é a nata, o que há de melhor em Veneza, amado e respeitado por sua bondade e compaixão: se ele trata Shylock como menos que um cão, imagine como são simpáticos os outros cidadãos?

É dessa dualidade que nasce um dos melhores monólogos shakesperianos, um monumento às consequências da desigualdade e do preconceito:

SHYLOCK – Os judeus não têm olhos? Os judeus não têm mãos, órgãos, dimensões, sentidos, inclinações, paixões? Não ingerem os mesmos alimentos, não se ferem com as armas, não estão sujeitos às mesmas doenças,não se curam com os mesmos remédios, não se aquecem e refrescam com o mesmo verão e o mesmo inverno que aquecem e refrescam os cristãos? Se nos espetardes, não sangramos? Se nos fizerdes cócegas, não rimos? Se nos derdes veneno, não morremos? E se nos ofenderdes, não devemos vingar-nos? Se em tudo o mais somos iguais a vós, teremos de ser iguais também a esse respeito. Se um judeu ofende a um cristão, qual é a humildade deste? Vingança. Se um cristão ofender a um judeu, qual deve ser a paciência deste, de acordo com o exemplo do cristão? Ora, vingança. Hei de por em prática a maldade que me ensinastes, sendo de censurar se eu não fizer melhor do que a encomenda.”

O empréstimo é feito. No contrato assinado entre Shylock e o mercador, é previsto que, não havendo pagamento na data aprazada, Shylock terá direito a uma libra de carne de seu cliente. Bassanio recebe o dinheiro para ir cortejar sua rica herdeira. Os navios de Antonio desaparecem no mar. E a dívida, então, é cobrada: Shylock terá sua vingança afinal.

Exceto pelo detalhe de que Portia, já casada com Bassanio e sabendo o que Antonio fez pela sua própria felicidade conjugal, decide interferir. Onde falharam todos os outros venezianos que tentaram demover Shylock ou encontrar uma forma de desfazer o contrato celebrado entre o judeu e o mercador, Portia, travestida de homem, triunfa. Apresentando-se como advogada, ela questiona Shylock, pede-lhe que ceda, que aceite juros, que aceite uma fortuna até maior que aquela que ele emprestou. Nada o convence ou comove. E, quando a causa parece perdida, Portia então lança sua última cartada: Shylock pode ter direito a sua libra de carne… o contrato, contudo, não lhe permitiu ter sequer uma gota de sangue na negociação. Se ele puder cortar Antonio sem lhe derramar sangue, então, ele poderá fazer o que deseja.

Portia é uma das personagens femininas mais interessantes de Shakespeare. O que ela faz naquele tribunal – onde, a se considerar seu gênero e posição, não deveria nem colocar os pés – é absolutamente genial: quando todos os doutores da lei de Veneza falham em salvar Antonio, ela entra para resolver a questão. E a resolve magistralmente. Em realidade, ela é muito superior ao marido e bem merecia mais do que a sociedade da época lhe destinava.

Pungente e até melancólica em seu final, O Mercador de Veneza é uma peça que merece ser lida e debatida, que dá espaço a muita reflexão.

Ficha Bibliográfica

Título: O Mercador de Veneza
Autor: William Shakespeare
Tradutor: Fernando de Almeida Cunha Medeiros
Editora: Martin Claret
Ano: 2013

Resenha e foto por Luciana Darce, advogada da equipe do escritório MMeira.