O Direito e as Letras: O Queijo e os Vermes

Nascido de uma pesquisa sobre processos contra bruxaria entre os séculos XVI e XVII, O Queijo e os Vermes é um recorte histórico sobre cultura popular medieval e o processo de investigação e julgamento da Inquisição. À primeira vista, o tema pode parecer de pouco interesse para quem não seja da área; mas a verdade é que Ginzburg consegue apresentar sua pesquisa numa linguagem não apenas clara, como envolvente. O maior mérito, contudo, vai para o protagonista da história: o moleiro Menocchio, um indivíduo do povo que sabe ler, escrever e interpretar – o que era algo quase impensável numa região rural da Itália em plena Idade Média.

Temos uma ideia bastante restrita e preconceituosa do que foi a Idade Média – os renascentistas fizeram um bom trabalho em caracterizá-la como “Era das Trevas” -, mas, mesmo a se levar em consideração tal lição, fato é que Menocchio foi um ponto fora da curva. Numa época em que educação não era prioridade, ele sabia “ler, escrever e somar”. Mais que isso, ele teve acesso a livros e ideias que o levaram a criar uma cosmogonia própria, com ecos de diferentes mitologias, princípios filosóficos e tolerância religiosa. Bem verdade que Menocchio se fez possível por duas verdadeiras revoluções que minariam por completo a sociedade feudal – o advento da imprensa e a Reforma Protestante -, mas mesmo a se levar em consideração tais fatores, seus interesses o deslocam da realidade em que crescera.

É pela capacidade de usar um arcabouço principiológico muito além de sua posição social que Menocchio chamou a atenção do Tribunal do Santo Ofício em 1583 e, quatro séculos depois, o porquê desse processo ter chamado a atenção de Ginzburg. Menocchio interpretou e adaptou suas fontes reconhecidas – a Bíblia em vulgata, ou seja, no vernáculo local e não em latim; o Decamerão numa edição não censurada; as viagens de sir John Mandeville; uma coletânea de evangelhos apócrifos; tratados teológico-filosóficos e até, acredita-se, um Alcorão – a um conjunto de crenças pré-cristãs que ainda permeava a cultura da qual ele fazia parte, fazendo suas próprias deduções, ignorando o que não lhe interessava, e terminando por criar algo completamente novo.

Ginzburg explora bastante o conteúdo dos livros lidos pelo moleiro e as interpretações que ele fez a partir deles. No meio dessa confusão hermenêutica, contudo, a grande verdade é que não importa tanto assim como Menocchio chegou às suas conclusões – que é o objetivo confesso do livro e o interesse dos historiadores –  mas sim que, a despeito do isolamento social causado por suas ideias e do risco que corria frente às acusações pelas quais foi investigado, Menocchio teve coragem de expor o que pensava.

Menocchio fez algo impensável para a época e que ainda hoje é difícil: elevou-se acima de seu status e daquilo que era esperado dele para questionar e quebrar dogmas. E, para a nossa surpresa, ele teve oportunidade de ser ouvido. Ele foi representado por advogados, ouvido tanto por juízes eclesiásticos quanto leigos, vigários e outros religiosos e, mesmo antes disso, ele compartilhava suas ideias com quem quisesse ouvi-lo. Ele ansiava pela oportunidade de compartilhar seus pensamentos, desde suas filosofias mais extravagantes até as injustiças sociais que enxergava ao seu redor.

O Queijo e os Vermes, com sua exploração dos meandros processuais do Santo Ofício e da forma como a cultura se difundia, especialmente nas classes populares, é uma investigação histórica interessante, mas é Menocchio, suas ideias e sua coragem que tornam esse livro um relato tão fascinante.

Ficha Bibliográfica

Título: O Queijo e os Vermes
Autor: Carlo Ginzburg
Tradução: Maria Betânia Amoroso
Editora: Companhia das Letras
Ano: 2006

Luciana Darce é advogada e integra equipe do escritório MMeira.