O Direito e as letras: O Sol é para Todos

Considerado um dos mais importantes livros do século XX, vencedor do Pulitzer de melhor ficção em 1961, O Sol é para Todos tornou-se um clássico instantâneo quando de sua publicação ao narrar, pela voz de uma menina de nove anos, o drama de uma cidade pequena do sul dos Estados Unidos quando um negro é acusado injustamente de estupro por uma mulher branca. A despeito dos temas fortes – violência racial, justiça, questões de gênero e classe – a história se destacou por seu ritmo vívido, humor e tom esperançoso.

A história se desenvolve num período de três anos e começa como um romance das aventuras de Scout, a narradora, seu irmão mais velho, Jem e o amigo de ambos, Dill; num viés que faz pensar em outros clássicos sobre amadurecimento, como Huckleberry Finn e As Aventuras de Tom Sawyer, ambos de outro monstro da literatura americana, Mark Twain. Assim segue a primeira metade do livro, apresentando os personagens e um pouco da sociedade que os cerca, até o dia em que o pai de Scout e Jem, o advogado Atticus Finch, é chamado a defender o negro Tom Robinson.

A segunda metade da história é toda voltada para o julgamento de Tom. A acusação se baseia nos testemunhos da vítima, Mayella e seu pai, Bob Ewell e não demora a ficar óbvio para todos os envolvidos que a história é falsa e Tom Robinson é inocente. Contudo, estamos falando do sul americano na década de 30, muito antes dos movimentos de direitos civis e, não importa o quão óbvia possa ser a verdade, o preconceito é mais forte.

O julgamento de Tom pode ser algo difícil de engolir para o leitor, mas a verdade é que ele é inspirado em fatos reais: o caso dos ‘meninos de Scottsboro’, ocorrido no Alabama em 1931, em que nove adolescentes negros foram acusados de estupro por duas mulheres brancas. Os rapazes passam pelo julgamento praticamente sem defesa, com turbas na rua clamando por seu linchamento, e são sentenciados à morte. O recurso de apelação foi negado, mantendo-se as condenações e o processo chegou então à Suprema Corte, que, numa decisão histórica, devolveu os autos à primeira instância, afirmando que o júri fora imparcial, que não houvera o devido processo legal e que os acusados não tinham sido corretamente assistidos por advogado. Em novo julgamento, após demonstrações de que a maior parte das provas era circunstancial e não se sustentava, uma das supostas vítimas reconheceu que a história do estupro fora uma invenção. Mesmo assim, os jurados continuaram a declará-los culpados. Entre 1931 e 1937, os rapazes de Scottsboro entraram e saíram de tribunais sempre com o mesmo resultado, numa série de julgamentos que entrou para a história por sua injustiça.

No caso dos rapazes – como no de Tom Robinson, no romance de Lee -, em vez de prevalecer a presunção de inocência, o que ocorreu foi um “culpado até que se prove o contrário… e mesmo com provas, continuaremos considerando culpado”. A justiça, no caso deles, não é um direito, mas um privilégio.

O Sol é para Todos, contudo, não é uma tragédia e isso se deve muito ao fato de a história ser contada pelo ponto de vista de Scout – o que a conduz a uma leveza inesperada – e pelo caráter do grande herói do romance, Atticus Finch. Atticus, que é um homem exemplar como vizinho, como cidadão, como profissional e como pai; e que não se permite comprometer seus princípios, mesmo quando a cidade se põe contra ele: um personagem, enfim, tão inspirador, que se transformou em um dos pilares da literatura americana. E ele conquista tudo isso não com atos grandiosos, mas na consistência de suas atitudes.

Ao final, O Sol é para Todos é uma lição de ética e empatia, sobre reconhecer que a vida pode até não ser justa, mas isso não nos exime de fazer o certo, ainda que seja doloroso.

O livro foi adaptado de forma bastante fiel em 1962, tendo o ator Gregory Peck no papel de Atticus Finch. O filme, aclamado pelo público e pela crítica, foi indicado a oito Oscars, tendo vencido em três categorias: melhor ator, melhor direção de arte e melhor roteiro adaptado. Considerando que essa semana celebramos o dia dos pais e também do advogado, O Sol é para Todos é tanto um ótimo presente como um bom programa para ler, assistir e se inspirar.

Ficha Bibliográfica

Título: O Sol é para Todos
Autor: Harper Lee
Tradutor: Beatriz Horta
Editora: José Olympio
Ano: 2015