O Direito e as Letras: Senhor das Moscas

Em Leviatã, o filósofo inglês Thomas Hobbes defende que seres humanos são egoístas por natureza e, por isso, tendem a guerrear entre si. Destarte, para não causarmos nossa própria extinção, é necessário que seja estabelecido um contrato social. É preciso que haja um governo e uma lei; do contrário, cairemos em discórdia e caos. Tal conceito é muito bem apresentado no romance Senhor das Moscas, do Prêmio Nobel de Literatura, William Golding.

Durante a Segunda Guerra Mundial, um avião cai numa ilha deserta, e seus únicos sobreviventes são um grupo de meninos. Os garotos têm de se virar sozinhos e, num primeiro momento, tudo é uma festa. Sem supervisão de adultos, numa ilha que é toda deles para explorar, os dias são passados aproveitando a liberdade que não estão acostumados a ter. Três personagens se destacam então: Ralph, Porquinhos e Jack, cada um representando uma faceta da natureza humana.

Ralph, que será votado chefe do bando, é um líder nato e, desde o primeiro instante, destaca-se por seu carisma. Porquinho, um menino gordo, que sofre de asma e usa óculos, é vítima constante de bullying de todos os outros personagens representa a cultura, a inteligência, a civilização. É ele quem se preocupa com as questões práticas, como a necessidade de construção de abrigos. Jack, que fora acostumado a pensar nele mesmo como um líder, se submete de início à liderança de Ralph… Mas, pouco a pouco, vai se libertando de sua camada de ‘civilização’ e se tornando cada vez mais violento, mais selvagem.

A princípio, eles conseguem manter uma espécie de ordem, um ranço de civilização. Mas não demora para que as coisas se degenerem. Naquele confinamento forçado, a ideia de individualidade, de razão, dilui-se na figura do monstro na floresta – figura que os meninos menores do grupo insistem ter visto -, na caça aos porcos selvagens, e no clamor pelo sangue.

Nessa sociedade primitiva que os garotos começam, há duas regras essenciais. A primeira é manter a fogueira sobre o monte mais alto da ilha, para assegurar a possibilidade de que sejam vistos e resgatados. A segunda é que em suas reuniões, deve-se esperar pela posse da concha, que representa sua vez de falar. As duas regras logo acabam quebradas – e quando a fogueira apaga exatamente quando um navio está passando, está pronto o palco para o caos.

Senhor das Moscas é uma alegoria assustadora, em que a individualidade e a razão dão lugar à turba irracional; ordem e lei são substituídas por sangue e sadismo. A situação dos meninos é exatamente aquela de que Hobbes fala. O estado natural do homem é a guerra uma vez que não existe um governo que estabeleça ordem. Nesse sentido, sendo todos os homens iguais em seu egoísmo, a ação de um só encontra limite pela força do outro – “o homem é o lobo do próprio homem”.

A obra de Goldman é um daqueles livros que nos fazem entender porque a literatura é indispensável. É uma história terrível, que chora “o fim da inocência, as trevas do coração humano”, mas ainda assim necessária. É um livro sobre a necessidade de governo e do Estado de Direito; sobre o papel das leis na sociedade. Mais que isso, é uma narrativa sobre o que de pior existe na humanidade. São coisas sobre as quais precisamos refletir, precisamos compreender, para não cairmos nos mesmos erros.

Ficha Bibliográfica

Título: Senhor das Moscas
Autor: William Golding
Tradutor: Sergio Flaksman
Editora: Alfaguara
Ano: 2014

Resenha e foto por Luciana Darce, advogada da equipe do escritório MMeira.